sexta-feira, 13 de maio de 2011

O Ventríloquo e o Invólucro

Dentro daquela caixa tem um esquecimento: vapores suspensos.
Coisa curiosa a fumaça do pacote.
Coisa que oculta o azul do céu: em combustão.
A poeira que se elevou do solo assentou depois da chuva.
E na noite todos dormiam.
E tudo era sombra.
E nada sabiam.

Em vão mãos cavam o chão, não encontram nada
e ficam em cólera.
O obscuro, o monturo,
as faces sem rosto no lúgubre.
Esquecem ou omitem.

Surgem os passos anchos
com os pedantes de garras sombrias.
Lá, cérceo ao chão,
fátuo insano e pretensioso ufano
no altivo círculo amaneirado
em voar pra fugir,
que não vale o vôo.

Na engrenagem,
da abordagem fria,
e na bazófia rala,
da fanfarrice aguda
com volta presumida,
de aperto soberbo,
e aceno entufado,
na ida sem volta,
na trapaça
no uso, no abuso.

E procurando a saída da treta
não se entende a tramóia.
Nada era tal qual parecia, apenas cenas
e palavras recortadas de frivolidades
que tanta prosa pode ser lorota.
Entre engonços, cordéis,
sustentam as marionetes,
contudo, caem, são as máscaras,
mas não perdem a mania,
continuam as personagens.

Vem o vento que vi ventríloquo.
Vai que move o pé,
a boca, e a mão do boneco.

Desmiolado, o fantoche refém do ventríloquo, que é sem ser
ninguém.
E quantos ventam no ar que outros movem,
sem saber, quem são?

Que continuam, apenas querendo,
ser aquele que o movimenta?
Os seus membros moles, e sem pensar
quem manda

e mexe o fio que comanda o poder. É tão louco, sem sentido.
E os comandados, pelo ventríloquo, sem emoção própria
são sombras do comando.

Roda argola e agora gira o que faz depois?
Abre-se a corola da flor
Em meio de tudo,
no entorno em ascensão acende um luzente.
Voa um mensageiro, tocando cítara.
Um pirilampo alado.

Tempo de sair do fundo do tempo.
Tempo de correr no oposto do tempo.
O tempo que não está no relógio.

Antes de criar asas,
no casulo do bicho-da-seda.
Silêncio, barulho interno,
desligando contato externo.
Visto outro céu sem travas, um espaço
que chove canções não decifradas.
Em túneis de labirintos,
com olhos dentro da pele,
o lugar mais profundo
qual mapa não existe.

Mas desperta a nascente,
do rio dentro da gente
de esquinas infinitas
na estação, dentro do trem
através das janelas
avista-se o abismo
mas existem caminhos

os sentidos
que sutilmente dançam.

Líquido em movimento,
vaza e esvazia a caixa.

Fumaça resinosa,
incenso, leva o amargo,
criando teias, ciclo.

Jorra água, sede de secar.
Intenso e flexível em fusão.

Sentir o começo,
ficar aberto,
receber o outro.

De tudo, passa,
aquece e evapora,
impureza que absorve.

Vazio do início,
para filtrar, o começo.

Gera o ciclo, da ciranda,
das trocas que abrem
e fecham o invólucro.

Como tudo que pulsa:
para protagonizar,
a própria cena.

Sobretudo
de todas as estruturas
de todas as construções.

Infinito reciclado.
Pensando no pensar,
segue o trilho suspenso.

Numa certa hora distante
de tudo
no canto do recorte
entrando por um buraco
invisível e saindo
do outro lado.

Chegando à ponte
após naufragar
liberta-se.

Entre palavras silenciosas
no despertar do sonho.
No entorno.
Entre cada um.
Na troca, nos rabiscos
em nós, gente, um eu e você,
no encontro.

4 comentários:

Du disse...

Quando eu crescer, quero conseguir escrever tão bonito quanto tu escreves... tuas palavras sangram em mim, sabe?

Beijos querida poet'amiga!

Long Haired Lady disse...

de algum modo sempre somos fantoches de algo...

Carla Ceres disse...

Poema complexo! Parece um labirinto com passagens para outros poemas que você escreverá no futuro. Beijos!

Alicia disse...

Uau, que destreza...