terça-feira, 15 de maio de 2012

O Invólucro e o Ventríloquo

 O Invólucro e o Ventríloquo - Apresentação CCBNB 2011 Juazeriro do Norte. Poema Publicado no IV Prêmio Literário Canon de Poesia 2011.

Edição: Davi Diógenes de Carvalho

http://www.youtube.com/watch?v=MspqB541IL0&feature=youtu.be

terça-feira, 10 de abril de 2012

Subindo Em Árvores


 
 SUBINDO EM ÁRVORES

Passa pela raiz do sensível.
Invade o caule.
Uma fotossíntese?
De palavras: No vento.










                                           PRISMAS E PRISÕES




Releitura

O desenho em aquarela de tantas cores
E pintado por riscos suaves sem força
Que caem em gotas formando linhas, como a chuva,
Toca a música, da natureza no jardim.

Entre os traços túneis: acharei labirintos suspensos
Qual mapa não existe registro?
É preciso despertar a nascente do rio
Nas esquinas, nos trilhos, nas estações,
Pela janela do trem onde se avista o abismo
e caminhos, em sentidos sem formas lineares.  
Estas canções que sutilmente dançam 
Numa certa hora, fora do tempo.




















TORRE

Cantando com os pássaros amanhece.

Entre o oceano e a massa de terra,
dentro do castelo etílico de lata,
perto do mar que quase entra na janela.

Quem mora na torre gosta do escuro
tropeça nas escadas e segura nos muros.

E ora canta. E encanta.

Acorda na corda, foge do mundo.
Abraça os laços, não sabe contar.
Enfim, adormece não quer acordar.


















MARCHA 

Fragmentos no asfalto.
Caminho certo em passo
descompassado,
 tão torto que acerta.
Sem linha
no cenário.
Liberdade. 
Que livre liberta-se.





















MIRAGEM

Uma flor de borboleta
voando nasce e cria asas
em conexões,
que se expandem, conectam,
ao mesmo tempo,
ampliando, tamanho,
tantas vezes prismas
que se multiplicam:
germinam, transcendem
em epifania de luz
que se dissolve
e remete fragmentos
de linhas e rabiscos,
do fim que começa
em um novo aspirar.

Lança-se em outra jornada
que forma uma semente
de botão em casulo,
frágil forma sutil,
como antes,
sem interferências
uma fina e delicada,
chama de vida
como a primeira imagem
que inicia de si
com força.
 Intensa na viagem
de luzes, no momento.



INVÓLUCRO DA CARAPAÇA

As portas. São surpresas.
As janelas, imaginação.
Uma crisálida de seda,
com o invólucro para começar.

Silêncio, barulho interno,
desligando contato externo.

Metamorfose antes de criar asas,
o casulo do bicho-da-seda.
Na saída das borboletas
da pupa. Liberta o corpo.

Casulo da crisálida
tecendo asas.

















CALOS

Aquele ouvido, não duvido, diz só meu:
Eu.

Ego e umbigo,
Um só laço de nó.



























                                               O DIA E A NOITE


DEGRADE
Na aurora,
orquestra
dos passarinhos.

O céu
azul tão leve.
Vai clareando.
Amanhecendo. 
Azul escuro,
com rosa enferrujado,
azul claro, com rosa turvo.

Nasce o dia.
Leve luz da manhã.
Algodão de claridade,
com música das aves.

No nascer.
Nas nuvens da janela,
um casal,
se beija.

Nas árvores cantam,
o amanhecer.
Amanhecer.
Amanhã será.


AMANHÃ

Por que não aprendemos na escola
a reconhecer a canção dos pássaros?
Porque lá não ensinam
a olhar para o céu.




























BOM DIA
Bom dia, que dia é hoje?
É dia de trabalhar Maria,
é cedo para se atrasar João
e sair correndo sem tomar café.

Bom dia, que dia é hoje?
É dia de chorar no banheiro
e lavar os olhos com sabão.
é a selva matinal lá fora
e a corola aqui dentro.

Bom dia, que dia é hoje?
É dia do fim do mês,
é o pouco sem nada
de gente pagando conta
mais do que vale
muitos juros, tantas multas.

Bom dia, que dia é hoje?
É dia de culto a deusa na floresta,
do banho de mar na praia azul,
das pessoas cantando nas ruas
e outras bebendo no mundo
que amanhã tem outro dia.







FRAGMENTOS

Nuvens em movimento
que dentro tem um lago
e escurecem os pincéis
de molho no copo d'água,
cor da tinta misturada.
Céu da noite, aquarela desbota.
Tons borrados no fim do dia.














BOA NOITE

As janelas fecham
e vestem os pijamas.

Uma mulher sussurra uma canção de ninar.
Um menino adormece no colo da mãe.
Um homem ronca na cadeira de balanço.

Lá fora um cachorro late...
o guarda de bicicleta apita.

 Boa noite,
chegou o sono.













ACORDAR

Esperar o dia clarear?
Ficar na corda?
Na madrugada
faz silêncio
do eco da noite?
O dia acorda com os pássaros?

Os pássaros
acordam o dia
todas as manhãs,
cantam para o dia
cantando, cada dia
da manhã que nasce?

O dia vai demorar,
esperar o dia chegar
esperar a noite dormir
esperar o céu abrir
segurar o sono
e depois,
dormir

de sono cair
e cair de sono
- se eu dormir?
O escuro,
tem barulho,
que barulho?
Sem cama,
noite
feito nó,
tanto sono,
sonho tanto
dormir?




















                                                 DA NATUREZA

M AREAR
a s s o p r o u  o  v e n t o

... A R E J A R...

n a  b r i s a  d o  m a r

... A R...











MANJAR BRANCO DO MAR

Mar, maresia e mitologia esculpida na areia,
mar, de Janaína e sete ondas da sorte
mar, que leva a rainha africana Iemanjá
mãe, cujos filhos são peixes.

Conduz pequenos barcos de flores e velas,
mar, água de espuma salgada da praia,
Da La Virgen de la Regla e do orixá:
da sereia negra, deusa do oceano.

Mar, onde pessoas vestidas de branco
no segundo dia do mês de fevereiro:
dedicam festejo a divindade do oceano
levando as oferendas em procissão fluvial.

Prata, manjar, da padroeira dos náufragos
sincretismo ecumênico na orla marítima
na devoção dos pescadores...
Mar, voluntarioso músico e místico.












HORIZONTE

Vi, voar,
desenho com asas.
Aves, abrindo voo,
planando, pintando
entre nuvens, versos.

Vi voar
as asas e aves
em voo.
Vi voar asas.

Aves, abrindo voo,
plainando e pintando
Olhar, singular.
Horizontes, originais.

















INFLORESCÊNCIA

Há os girassóis era fácil de imaginar,
podia logo suspeitar
mas como pensar na margarida
do olho do dia nos campos floridos?
- há de ser loucura -
descobrir que na essência
o amor da minha infância
não tinha apenas pétalas
mas uma inflorescência
de bem-me-quer
ou malmequer
em uma massa de flores minúsculas
a pâquerette que vê
há de ser falsa flor.

















BRILHO 

Nenhuma palavra.
Ouvindo o vento.
Caçando borboletas,
no arco de chuva fresca.
E gotas, molhando, mandala
áurea d’água.
Manto de luz,
natureza, apenas
um sonho.
Num instante,
de dúvida
da realidade.




















LUZ

Luz
No recreio da menina,
e banho cintilante.

Luz
dentro do rio quase mar
no abraço de água doce,
que se expressa no olhar.

Brilho quente da manhã de sol.
Sorriso no rosto, molhado do mergulho.
Cor, contraste, nitidez
feixe de fótons
na retina.

Luz
o branco decomposto
em espectro.
Um prisma. Imagem
que revela arco-íris.








VERDE FLOR
A menina que vi era uma rosa.
Salta um olhar de encanto.
Espreita a natureza.
Dizem que congelou a pureza
ao crescer guardou toda beleza.
E a poesia? Calou-se?
Para olhar nos olhos da pequena.

















NA FOLHA DO VENTO
Coisas de vento sem passatempo
nem tempo,
faz uma onda de redemoinho
em espiral,
o pé-de-vento levanta a poeira,
são os torvelinhos em dias quentes,
o vento, conta segredos,
é o vento.

Meu jornal, não fuja no vento,
vamos fazer um barquinho de papel.

O vento faz movimentos
o vento bagunça o cabelo,
faz o bem e o mal.
Silencio e barulho,
o vento vira belo
dançando nas árvores
entre folhas balançando
e páginas virando.

Entre folhas balançando,
o vento, não o tornado.
Certos ventos derrubam
as moradas dos pés
e quando os lábios ressecam
e quando o calor atormenta
o vento traz um alívio
o vento refresca a testa
pairando uma calmaria.

Vento é elemento do ar.

Lembra: o vento passou na praia
o vento desenhou na areia
tirando tudo do lugar.
Assim, a paisagem mudou.
Da última vez que vi
já não estava a duna ali.
Vira tudo bem diferente
tira tudo do canto
e faz esculturas em rochas.

Daqui estou sentindo o vento
fraco, quase parado,
mas também sinto o calor:
sinto sede, sinto a seca
sinto o corpo que esquenta
e a moleza que aumenta.
Vejo a janela aberta
que conversa com a porta...













                                                  POROS E SENTIDOS

TODO DERME
por descuido encontrou o amor e por amor sente dor de alegria
sentia
refletia o sol do espelho do rio
sorria o solto afeto
dentro do peito que toca
e aperta: o coração
rugas de vida na vida nascida
da pele grossa que roça a carne fina.















 INVENTO

Acordar sem despertador
e sem despertar a dor
amanhecer.

Fruindo os sentidos.
Vivência e partilha.
Sem pressa. Sem hora.

Viajando pelo imaginário.
A janela liberta. 
Infinito, tece o céu.

Pálpebras em movimento,
beijo das pestanas.
Como tudo que pulsa.

Colecionando ideias
em trilhos suspensos.
Sem tampas. Sem travas.

Olhar outros olhos.
Devir. Íris da criação.
Nas linhas curvas,
entre esquinas.

A folha respira
nos dedos dos galhos:
leve brisa; acorda.

Sobrevive o sonhador.
Ir e vir, mandalas.

Sonhos, passagens
em passos descalços 
que habita
entrelinhas?





























PARTES QUE PARTEM

Não sabia suportar a dor
só fazia se machucar.
Só sabia amar
antes de perder o amor.



















CICLOS
Verdade? Vontade? Bem queria ouvir o que internamente escuta:
conhece o caminho, mas, perde-se na curva, procura os atalhos,
volta ao começo intensas vezes, de novo, novamente, outra vez.
Poderia voar todas as manhãs, mas precisa saber cantar,
- toda a leveza invertida! Invadida na correnteza. Volta-se água
mas se deixa fazer fogo! Move, ventam labaredas,
apenas sentidos nos extremos distantes do corpo
de espaços vazios, e excessos - que já fez – os sentidos morrerem.
E na sede infundada, aproxima-se do ser vulnerável;
e quando segue o coração, em todo canto ouve um canto.
Então percorre meio natureza, meio do meio.
Tem calos nos olhos de tentar enxergar, ou senão,
cansa os lábios de não falar; e de si precisa ouvir;
sair da esbugalha maledicência; querendo: só, sossego desassossegado.
Acaba deitando, no próprio encontro; e fala manso e alto, procurando um ponto; correndo do poço batendo fundo levanta do tombo.
Sente o arrepio e fecha os olhos, quer ouvir o som que começa no mar,
e quantas vezes volta a mergulhar -dentro de si - para se achar,
um ser em constante movimento que algumas vezes sente distancia do eu consigo mesmo.












O OLHO

O olho olha
para o olho,
dentro do olho,
que olha.

Olhar para o olho que olha?
ou dentro do olho que olha?
O olho olha para dentro,
do olho, que olha dentro do olho.

Olhar o olho que olha,
dentro do olho que olha,
que olha o olho
e no olho, olha, no espelho.

Olhar fora do olho...
Olhar para dentro do olho.
Olhar o olho no olho.
Olhar, o olho que olha.














DENTRO E FORA
Pele
atração e repulsa.
Subjetividade,
fluxos.

Dentro e fora
linhas.
Ao acaso
tempo e
existência.

O fora,
ilimitado,
o dentro
finito.
















ALGODÃO

Meu pé de algodão-doce
e silêncio em verso
na melodia do peito
uma nuvem 
que amacia,
o céu.

























ENTRE
No vazio entre
um e o outro
e alguém;
somos nós, gente,
tecendo o ser, o reticente,
entre, um eu e você,
no meio do encontro,
dentro de cada um.
























                                                   NO ENTORNO

REDE DE PESCA
O peixe que o pescador pescava
já não está mais no rio.
Antes jogava tarrafa,
sem pressa, voava cardume.

O homem do vento
não vai pescar.
Acorda sem nada
seu rio comeu lixo.

O rio pesadelo
antes era amor.











BOLHAS DE SABÃO
Porque para voar, é preciso ouvir os pássaros
cantando livres e fora das gaiolas,
porque não sei fazer poesia, sei inventar
palavras que vivem soltas no vento.


















SETE CORES
São sete cores do arco-íris
sete chacras de energia
pintam o corpo físico
do céu astral, correm roda.
São sete fitas meridianos
traçam linhas e pontos
sete ondas quebrando no mar
e sete dias e noites na semana
que trazem novas descobertas,
então são sete caminhos,
sete destinos no labirinto?
Ou sete labirintos?




















MOLDADO

Na janela,
o tempo lá fora.

Entre tantos barulhos metálicos,
os coqueiros dançam no vento.
Acordam os sentidos.
São os tempos atropelados. Normose. Turbulência.
A vida passa despercebida. Plastificada em anestesia
paralisada. Visto que cinzas escurecem
o caminho.






















O SONHO

O tempo é ocupado
tão compacto que faz falta.
O tempo passa antes da hora
sem pedir licença aos ritmos bucólicos.
E chega de tanta pressa,
de tanto, tudo.
Só pra ver as horas no céu
e esquecer o relógio.
Só pra ouvir os passarinhos cantando lá fora,
o bem-te-vi, os pardais, canários
e todos os outros mais.
E encontrar com Tistu (menino do dedo verde),
tocando cada canto desbotado
germinando o colorido.

















MUNDOS

Um mundo só teu se constrói
com o mundo de fora e vibra
com os outros mundos do mundo.

Enquanto interage com os mundos
de todo mundo no mundo um.


























TIC – VAI

Desprezou os ponteiros
olhou para o céu
estava na hora
de viver fora do tempo.

Que encanto, sair do relógio,
voltar os ritmos bucólicos,
ver as estrelas sorrindo
cadentes de amor.























FOMENTO

Nasce do teclar de dentes inanimados:
Choro de vida interativa a ressoar tangível
nos lábios do ciberespaço
em fruir no seio coletivo.




























ORIGEM
Ando suspeitando que a poesia
filha de uma deusa lírica da imagem,
faz-se imbuída de criatura viva,
que se reconhece na Obra-de-arte.




























ARCO - ÍRIS
No começo desenho
do papel em branco
entre o vazio e o imaginário
entra a liberdade:
como sair da prisão?

As imagens dizem além das palavras
que muitas vezes não dizem verdades.
No papel com giz de cera,
a impressões das folhas.

O compasso deixa sua marca:
uma bailarina híbrida dançando só.
Como se movimenta com sutileza,
diz o pirógrafo.

A tinta
em arco-íris.

O lápis número certo
de todos os traços.
Um grafite revestido.
Segue a mão que leva
o invólucro de madeira.

O papel com guache
virou de uma mancha negra
para uma bola preta.

Imagens em cores
surreais e impressionistas
de desejos abstratos.
Pinturas, gravuras e desenhos
de riscos no borrão.

Tudo é rascunho de ser
no cavalete uma tela
um pincel e uma aquarela
é mais do que escrever.


















ESPELHO DO SOL
Preparando uma porção
em que tudo aconteça,
todas as manhãs aconteçam,
na inflorescência.